Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008
Flajelos da Sociedade

  As sociedades têm de tudo, do muito bom a "desastres"!!! Todos os dias tropeçamos neles, chegam mesmo a perturbar o funcionamento equilibrado na nossa vida... Ninuém gosta de chegar a sua rua e ver prostituição, droga, deliquência!!! Mas o que fazemos para os prevenir?!

  Prevenir é a palavra chave para sociedades felizes... Pois, se intervirmos precocemente nas pessoas mais vulneraveís a estes vicíos e estarmos todos (família, escola, amigos, sociedade geral) de "olho", talvez seja mais fácil perceber certos sinais que as pessoas perturbadas laçam para o exterior!!

 

  O suicídio é actualmente considerado um fenómeno complexo, necessitando de esforços coordenados de vários sectores, unidos através de uma correcta metodologia de intervenção, tanto quanto possível objectiva.

  Existem muitas dificuldades com a própria definição de suicida, uma vez que muitos autores consideram o suicídio como um acto de auto destruição. Nesta perspectiva, a toxicomania, o alcoolismo, o excesso de velocidade na condução, a intoxicação por medicamentos, o enforcamento e a auto mutilação, são situações claramente ligadas à auto-destruição.

 

 

 Viajar por dentro de um suicída!!

 

 

 

 

  Autópsia psicológica é a designação usada pelos investigadores em suicídio. Diz respeito ao procedimento usado para esclarecer a natureza de uma morte, focando os seus aspectos psicológicos.
  É importante apoiar aqueles que cá ficam, nomeadamente a família, pois a dor causada por um acto suicida é muito grande e devera ser complicado de ultrapassar. Torna-se urgente nestes casos a existência de técnicos de saúde aptos a prestarem ajuda aos pais e amigos de alguém que atente contra a sua própria vida. 

Uma mãe em desespero pediu a um especialista (Dr. Daniel Sampaio) que a ajudasse a saber o porquê, de o seu filho Paulo de 22 anos, ter acabado com a sua própria vida, e o que ela e o marido falharam.

  O Dr. Daniel Sampaio pediu-lhe alguns documentos que o puderam ajudar, como o relatório da autópsia e da polícia, certificados de estudo e um diário que ele escreveu na viagem de férias (Agosto de 1991), e ainda relatos de amigos e professores.

  O relatório da polícia que encontrara o corpo não deixava dúvidas:

“Participo a V. Ex.ª. Que hoje, pelas 23h15m, por determinação do graduado de serviço à Esquadra, desloquei-me à residência n.º (…) do Bairro (…), da cidade de Chaves, em virtude do S. Dr. Adriano Tavares e esposa, pouco antes, terem chegado de ferias e depararem na cozinha com o filho, Paulo António Freitas Tavares, nascido em 12.5.1969, solteiro, estudante filho de Adriano Silva Tavares e de Luísa Freitas Tavares, titular do Bilhete de Identidade nº. (…), emitido em a 8.2.1991 pelo Arquivo de Identificação de Lisboa, natural de Angola e residente que foi com seus pais na morada acima indicada, morto e em adiantado estado de decomposição.

  Chegado ao local, verifiquei que a vitima se encontrava deitada de costas, com a cabeça apoiada numa almofada e dentro de um alguidar de plástico, ensanguentado por ter disparado contra si um projéctil no ouvido direito, com a pistola PIETRO BERETTA nº. …, Calibre ponto 22, arma que se encontrava caída a seu lado, que possuía um carregador com seis munições, bem como um invólucro que estava encravado na janela de injecção. (…). Por informação do Senhor Doutor Adriano, aporta de entrada encontrava-se fechada á chave e toda a casa se encontrava devidamente arrumada. (…).”

  Paulo era um rapaz que tinha tido uma boa vida escolar, sempre foi dos melhores alunos, tentou sempre fazer aquilo que gostava, completou um curso de Informática e quando se suicidou estava no 4º ano de um curso de Matemática., que pelos pais diziam era um dos mais difíceis. Os professores diziam que era um aluno inteligente e culto, e sempre muito bem-educado.

  Ele tinha uma relação muito próxima com a sua mãe, embora as vezes não sabia como se expressar. Foi mais difícil determinar a relação que tinha com o seu pai, mas o Dr. Adriano teve uma grande importância na vida do seu filho, são frequentes as referências a passeios com o pai, podemos dizer que a figura paterna foi marcante entre os quinze e os dezasseis anos.

  Tinha uma grande paixão pela a leitura, nos seus últimos anos de vida dava grande importância á leitura sobre a vida e a morte.

  Podemos ver que foi bastante difícil a saída de Chaves, onde morava com os seus pais e irmã, para uma caminhada sozinho para Braga onde estava a tirar o curso de Matemática.  

  No ano lectivo de 89-90, foi quando Paulo demonstrou um pouco da sua insegurança e a falta de amor-próprio. O seu amigo Manuel diz: “ O Paulo estava integrado num grupo (3 rapazes e 2 raparigas). (…) Em finais de Janeiro começou a ter problemas por passar demasiado tempo connosco em vez de estudar. (…) Por a altura de Maio, não sabíamos ao certo o que se passava com ele, mas era evidente que algo corria mal. Organizámos-lhe uma festa de aniversário surpresa esperando com isso animá-lo. Todo o dia foi uma festa (menos para ele, como mais tarde nos diria: achou que muitas pessoas estavam lá forçadas e pouco naturais, e até que falavam mal dele).

  A pouco e pouco foi-se abrindo connosco (talvez porque a situação fosse insustentável), até nos contar o que realmente se passava: ele sentia-se insultado na rua,

na Universidade, no lar, por qualquer pessoa (conhecida ou desconhecida). (…)

(…) tentámos provar-lhe que tudo aquilo se devia com certeza a uma má interpretação, a impressões soltas, que em definitivo não tinham a ver com ele nem podiam ter.

  Comecei a sugerir que pusesse o problema a família. Ele negava-se e proibia-nos de o fazer.

  Confrontados com a possibilidade de o fazer crer que a situação não passava de um conjunto de mal-entendidos (sem nunca ter colocado a hipótese de alucinações ou loucura), decidimo-nos a colaborar no sentido de o motivar a sair do que acreditávamos ser uma armadilha por ele mesmo montada.

(…)

  Um dos pontos em que chegamos a acordo foi assim que acontecesse uma dessas situações e nós estivéssemos presentes ele nos chamaria a atenção para o facto, a título de prova.

  Durante um almoço, uma senhora foi de encontro a uma rapariga e disse:

- Desculpe.

  O Paulo virou-se para mim e disse:

- Viste.

- O quê – perguntei eu.

- Ela disse «que burrinho».

  Eu disse-lhe o que realmente tinha ouvido e ele baixou os olhos.

  Nesta altura ele encontrava-se mais isolado que nunca. Passava os dias fechado no quarto na penumbra, á noite dormia mal e não conseguia estudar. Tentamos mostrar-lhe que ele não estava sozinho e que lhe dávamos apoio incondicional.

  Contactamos um psicólogo, que ao tomar conhecimento que estávamos ali por outra pessoa e depois de nos ter escutado, nos disse que primeiro deveríamos conseguir que o Paulo tomasse consciência de que precisava de ajuda para poder ser ajudado. Passados dois dias contactamos os pais.

  Como nota final, gostaria de acrescentar algo que o Paulo me disse nessa altura. Foi qualquer coisa como o que se segue:

«Eu, até ao início deste ano, nunca tinha sentido o mínimo de orgulho de mim próprio. Agora, que já tinha uns píncaros de amor-próprio… foi tudo por água abaixo.»”

  A carta do Manuel é a chave da compreensão da doença do Paulo. Depois de um período escolar com bom rendimento e sem dificuldades quer no aspecto interpessoal quer no a nível geral, houve um processo de isolamento mais acentuado que o levou a fechar-se sobre si próprio, e a sofrer uma intensa angustia que não o deixava estudar nem dormir.

 

  Assim podemos compreender as dúvidas dos amigos sobre a maneira de agir. Presos a uma amizade e a uma lealdade imposta pelo Paulo, que lhes havia exigido que não falassem a ninguém do seu problema, e sentindo ao mesmo tempo que o amigo precisava de um tipo de ajuda que eles não lhe conseguiam dar, só ao fim de algum tempo com muitas incertezas e hesitações decidiram contar a família, o que é compreensível fase a imposição do Paulo.

  A família convenceu-o a procurar tratamento psiquiátrico. O Paulo foi a algumas consultas, mas nada mudou pois apenas foi medicado e pouco tempo depois abandonou as consultas.

  Podia-se ler muitas vezes nos seus apontamentos provérbios ou citações da Bíblia, “Há apenas pouca sorte em não ser amado: verdadeiramente infelicidade em não amar!”.

 Albert Camus, L’Été.

  Paulo decide nos primeiros dias de Agosto ir passar umas férias a Sintra, onde decidiu escrever um diário que aparentava que tudo tinha corrido bem e que tinha conseguido ter uma paz interior com a natureza, mas o pior vinha. Esteve dez dias na Praia da Areia Branca, onde não deu sinal. No dia 22 de Agosto telefonou a família a dizer que estava em Lisboa e que pretendia ir para Chaves sexta-feira, dia 23.

  Na manha de dia 23, ocorreu o suicídio mas tenha sido encontrado dia 25 de Agosto de 1991, já com um grande estado de decomposição.

  Existem duas hipóteses para que tenha ocorrido depois naquelas férias, uma delas é que Paulo tenha caído em estado de grande abatimento. A outra hipótese é que a sua doença psicótica tenha tido um novo agravamento que o levou a atentar contra a própria vida. Sabemos como procurava desesperadamente um sentido para a existência e como as alucinações e as suas ideias de perseguição o perturbavam. 

  Como podemos hoje, passados quase dois anos sobre a sua morte, compreender o que se passou?

  Tudo quanto é possível afirmar num estudo retrospectivo, sem nunca ter conhecido o Paulo, é sujeito a critica. Mas existem dados suficientes para poder concluir.

  Paulo sofria de esquizofrenia, de começo mal definido, mas de intensidade marcada. A favor deste diagnostico existe a sua personalidade prévia, onde os traços de introversão e timidez foram salientados por muitos dos seus amigos e familiares.

(Retirado de SAMPAIO, Daniel (1993), As vozes e os ruídos. Lisboa: Caminho)

 

publicado por Raquel Cortez Vaz às 03:48
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